sexta-feira, 5 de outubro de 2012

EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA (PUERTO VARAS, CHILE)


Eu enxergo a vida como uma série de desencontros pontuada de ocasionais encontros. Explico... Quando escolhemos ser, por exemplo, arquiteto ou advogado, em teoria mata o engenheiro, o médico ou o atleta profissional dentro de si. Quando escolhemos viver em determinado país, em determinada cidade, extinguimos as possibilidades de sermos residentes de outras localidades. Quando escolhemos viver com alguém, quando nos casamos, fechamos as portas dos nossos corações ao resto do mundo... Tudo, claro, teoricamente.

Um pouco por sabermos que nosso tempo de vida é limitado e, portanto, escolhas precisam ser feitas, mas também em maior parte por pressão social, tomamos caminhos muitas vezes pré-determinados. Escola, faculdade, casamento, paternidade, profissão, planos de carreira, aposentadoria... Essas coisas todas vêem em pacote e para muitos chegam quase que de uma só vez.

Às vezes admiro profundamente quem consegue viver assim, seguindo os caminhos já mapeados, navegando a potente corrente desenhada pela sociedade. Nunca consegui isso. Talvez eu vivesse mais meus sonhos e fantasias, talvez me faltasse a paciência de primeiro plantar e depois colher.

Fato é que o rumo que dei à minha vida me trouxe até aqui... A Puerto Varas, na Patagônia chilena, no começo de uma viagem de bicicleta de seis meses de duração. Não é sina, não é destino, mas o resultado das escolhas que fiz, dos caminhos que tomei. Literalmente.

Estou no terceiro dia de viagem, meu primeiro dia de descanso, e o resumo dos dois primeiros dias, em manchetes, foi... 

De Bariloche (Argentina) a Petrohué (Chile), peguei a famosa excursão Cruce Andino (link para site), porque de outra forma teria que pedalar via Villa la Angostuna (Argentina) por três longos dias em rodovias de asfalto cheias de caminhões. No escritório da empresa, em Bariloche, eles dizem que a viagem foi programada para ciclistas também, minha opinião é que o ciclista em que eles basearam o percurso é o Lance Armstrong...

São três barcos. O primeiro de Puerto Pañuelo a Puerto Blest, pelo Lago Hanuel Huapi no braço Blest. De Bariloche a Puerto Pañuelo são 26 quilômetros de asfalto, com bastante trânsito de veículos e sem acostamento. Com meu bike trailer de 32 quilos totais eu demorei uma hora e 50 minutos, sendo que havia previsto uma hora e meia e sendo que no escritório da empresa me disseram, insistentemente, que bastaria uma hora... Resultado final, estresse! Eu bufava, xingava, suava, rangia os dentes e cronometrava cada quilômetro do percurso. Cheguei faltando oito minutos para o barco zarpar e vinte e dois minutos atrasado segundo o horário de embarque. A tripulação estava nervosa comigo, mas acabaram me ajudando muito.

Uma vez em Puerto Blest pedalei, como um atleta olímpico mas sem meu trailer, que viajou em caminhão com as demais bagagens, três quilômetros por um lindíssimo bosque de alerces (gigantescas árvores primas das sequoias). Peguei então o segundo barco, bem menor, de Puerto Blest a Puerto a Puerto Frias pelo Lago Frias.

De Puerto Frias a Peulla, no Chile, são 29 quilômetros de estrada de terra, com quatro quilômetro iniciais de subida de serra, oito quilômetros de uma descida estonteante e logo 18 quilômetros de plano. Fiz, graças à gentileza binacional de argentinos e chilenos, sem meu bike trailer, novamente como se estivesse numa corrida contra o tempo, em pouco mais de duas horas de pedal, sendo que tinha menos de três horas para não perder o barco. No posto policial chileno de fronteira um cachorro, cinza, muito peludo, de orelhas desalinhadas, muito jovem e brincalhão, me acompanhou no galope até Peulla. A temperatura devia estar em torno dos 8°C e toda vez que eu parava para fazer uma foto, o bichinho se atirava em alguma poça de água gelada até as bochechas. Apelidei ele de "puma" e pedalei muito imaginando como faria para levá-lo comigo para o Brasil...

O terceiro barco do Cruce Andino navega de Peulla a Petrohué pelo Lago Todos los Santos, em território chileno. A paisagem é maravilhosa, com vista do Vulcão Osorno e outras montanhas geladas. Mas eu estava tão cansado e estressado que terminei dormindo encostado em minha mochila, meio sentado e meio deitado numa fileira de quatro poltronas. Acordei babando e com turistas me olhando estranho, talvez se perguntando porque alguém dormiria numa viagem tão linda...

Em Petrohué decidi esticar mais 16 quilômetros até Ensenada, às margens do Lago Llanquihue e mais próximo de Puerto Varas. Dormi em uma cabana de madeira por dez dólares porque para acampar custava cinco. Achei a diferença pequena pelo conforto de cama limpa, chuveiro privado e aquecimento de lenha em fogão de ferro. Sábia escolha! As Cabañas Barlovento são administradas pelo casal Fredy e Ulrike, ele chileno e guia de montanha, ela alemã e agente de turismo. Quando eu decidir escalar o Osorno, vou procurar esse cara para me guiar...

De Ensenada a Puerto Varas, no dia seguinte, foram 47 quilômetros de asfalto e muito cansaço... O trailer está leve para seis meses de viagem, mas eu não estou na minha melhor forma física. Sofri bastante e pedale por três horas, com mais duas horas de paradas, intervalos, fotos, filmagens, etc. Cheguei em Puerto Varas às 15:00 só pensando em um banho quente e alguma comida... O que viesse primeiro.

Foi quando a coisa mais importante e marcando do dia aconteceu, por isso a foto do Pluto na abertura dessa postagem... Entrei em contato com a Adri, minha mulher, em São Paulo para dizer que estava bem e ouvi dela, entre lágrimas dos dois, que nosso amigo e companheiro de 15 anos de vida juntos, o Pluto, havia morrido... Lembramos de tantas viagens, aventuras e momentos que passamos juntos, nós três. Adriana e eu estamos juntos há 16 anos e meio, e o Pluto ficou conosco por quinze anos mais ou menos. Ou seja, ele nos acompanhou quase todo nosso tempo juntos.

O Pluto acompanhou minha mudança de vida, quando deixei de dar aulas de inglês e montei a Kalapalo Editora, quando produzi meu primeiro Guia de Trilhas... Ele estava comigo quando comecei a dar aulas de mountain bike em Nazaré Paulista... Subiu montanhas comigo na Serra da Mantiqueira, foi levado por um rio caudaloso em Itamonte (MG), quase se afogou desaparecendo entre rochas submersas, apareceu do lado de lá do rio abanando o rabo e pedindo mais... Desceu um bote de rafting em Extrema... Perseguiu um tamanduá mirim na Serra da Canastra... Saltou por cima de uma cobra coral em Visconde de Mauá... Enfim, se divertiu muito ao meu lado e ao lado da Adriana, a verdadeira paixão dele (e minha).

Escrevo com lágrimas nos olhos pela partida do meu amigo e companheiro, sinto saudades dele e do tempo que vivemos juntos, um tempo especial e muito marcante para mim. O Pluto foi encontrado na rua pela Adriana, na Avenida Pompéia, perdido e assustado, prestes a ser atropelado. Ela o trouxe para casa até que pudéssemos encontrar sua verdadeira casa. Encontramos seu antigo dono, que para nosso espanto não queria mais o cachorro. Ficamos com ele, ou ele ficou conosco. Não gosto de "humanizar" animais, mas sempre identifiquei muita gratidão nos olhos do Pluto. Hoje sou eu quem agradece a ele...

Link para a apresentação da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA
Link para o CHECKLIST da expedição
Link para o CRONOGRAMA estimado da expedição
Previous Post Next Post Back to Top